Nada de Líquidos
Ann, 3 Ann, 32 anos, secretária de um médico em Dublin, na Irlanda, é encaminhada a uma clínica para tratamento de depressão. Ela confidencia que a razão para sua depressão é que, nos últimos 5 meses, vem tendo medo de urinar-se em público. ela, na verdade, jamais fez isto e, na segurança de seu lar, considera a ideia completamente absurda.
Quando Ann está fora de casa, o medo domina seus pensamentos e ela toma precauções para evitar que isso aconteça. Ela sempre usa absorventes higiênicos, jamais se afasta muito de casa, limita seu consumo de líquidos, parou de beber álcool e mudou sua mesa de trabalho para perto do banheiro. Durante as 2 semanas anteriores à consulta, ela foi incapaz de ir ao trabalho, devido à intensidade de seu medo.
Ann recorda vagamente que seu pai também tinha medo de urinar-se em público. Todos os dias, antes de sair para o trabalho, ele urinava várias vezes e evitava beber qualquer líquido. Sua irmã mais jovem foi tratada com sucesso em razão de um ritual de limpeza.
Ann teve tratamento psiquiátrico há dez anos atrás, quando temia ter contraído sífilis, embora não houvesse qualquer evidência clínica ou laboratorial de infecção. Até cinco meses atrás, ela jamais teve medo de urinar-se em público. Além desses temores específicos, ela sempre foi uma pessoa ansiosa e insegura, considerada por sua família como demasiadamente cautelosa e perfeccionista. Desde o ano passado, sente-se aflita acerca do retorno iminente do namorado para seu país de origem, após completar seus estudos de medicina na Irlanda. Ela divorciou-se há cinco anos, e atualmente vive com seu filho de 7 anos e com a mãe, que desaprova seu namorado. Ann tem sentido uma crescente pressão para terminar o relacionamento. Ela acredita que o início de suas dificuldades atuais coincidiu com o estresse em seu relacionamento com a mãe e com a ameaça da partida do namorado.
Durante a entrevista, Ann mostra-se visivelmente ansiosa. Ela comenta que se sente desanimada com seus problemas. Tem problemas para dormir e nenhuma energia durante o dia. Embora seu apetite esteja fraco, ela não perdeu peso.
Discussão sobre "Nada de Líquidos"
Ann restringiu acentuadamente suas atividades habituais em razão do medo de urinar involuntariamente em público. O medo de estar em situações das quais a fuga poderia ser difícil na eventualidade de desenvolver um sintoma embaraçoso ou incapacitante é chamado de Agorafobia. Geralmente, a Agorafobia é uma complicação do Transtorno do Pânico, no qual a pessoa evita certas situações que associa com o fato de haver tido um ataque de pânico. Muito mais raramente, não existe uma história de Transtorno de Pânico , e o medo diz respeito ao desenvolvimento de algum sintoma específico, tal como perda do controle urinário (como no caso de Ann, vomitar ou ter um problema cardíaco. Nesses casos, o diagnóstico é Agorafobia Sem História de Transtorno de Pânico (DSM IV, p. 385).
O leitor poderia perguntar por que a condição de Ann não é diagnosticada como Fobia Social, que consiste de um medo persistente de uma situação na qual o indivíduo é exposto a um possível escrutínio por outros e tem medo de poder fazer algo (por ex. urinar) que seja humilhante ou embaraçoso. Na Fobia Social, a pessoa tenta realizar uma atividade voluntária (por exemplo, falar, comer, escrever, urinar) e teme que a atividade normal seja prejudicada por sinais de ansiedade (por ex., ser incapaz de falar, engasgar-se enquanto come, tremer enquanto escreve, ser incapaz de urinar). Em comparação, na Agorafobia Sem História de Transtorno de Pânico, a pessoa teme desenvolver subitamente um sintoma não relacionado à atividade que tenta realizar (por ex., aflição cardíaca enquanto faz compras, micção involuntária quando está longe de casa, tontura enquanto atravessa a rua). Ann também está deprimida e apresenta vários sintomas da síndrome depressiva, incluindo fraco apetite, insônia e energia diminuída. Suspeitamos de um Episódio Depressivo Maior, mas uma vez que existem informações inadequadas para determinar se todos os critérios são satisfeitos, anotamos Transtorno Depressivo Sem Outra Especificação (DSM IV, p. 333).
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